A nossa Nacional 2

Os preparativos

O viajante é um perscrutador do mundo que o rodeia e aquilo que vai
indagando regista-o no seu diário de viagem (…) Dependendo da orientação da sua atenção e da finalidade daquilo que quer registar, o desenhador optará ainda pela omissão de determinados pormenores considerados
secundários ou, pelo contrário, pelo registo realçado dos mesmos, por achar que estes pormenores devem assumir um valor importante.
in “Desenhando em Viagem, os cadernos de África de Roberto Ivens” de Mara Taquelim

Numa volta de Domingo de manhã o Tico anunciou a intenção de aproveitar a semana com dois feriados para ir fazer a N2. Assim de repente e sem férias marcadas limitei-me a desejar-lhe boa viagem, sem colocar a hipótese de o acompanhar. Mas dos projectos mais populares para fazer de bicicleta este era um dos raros que me despertava verdadeiramente o interesse.

Passados uns dias, talvez numa 3ª feira à tarde, na semana anterior à jornada, recebi um telefonema dele a pedir ajuda para lhe preparar as etapas para carregar no GPS. Perguntei-lhe que pontos de paragem tinha previstos e disse-lhe que tentaria fazer algo nessa noite, se tivesse tempo. Na verdade até foi rápido, com recurso ao RideWithGPS e aos mapas do Google com o indispensável StreetView. Mas desengane-se quem pense que foi só clicar em pontos da N2 assinalados no mapa e deixar o software fazer o resto. Apesar de estar longe de ser um conhecedor das características desta estrada sabia bem que não se trata duma estrada homogénea mas sim dum conjunto de troços de características diferentes. Por exemplo, nas férias de 2019 tinha andado para os lados de Vila de Rei e percebido que a actual N2 naquela zona se tinha transformado numa via rápida que chegava a ter 3 faixas em algumas zonas. Sabia também que nessa zona havia um troço da N2 original que tinha sido requalificado como estrada municipal. Com esse alerta em mente tentei avaliar, muitas vezes recorrendo à precisosa ajuda do StreetView, as condições da estrada por onde estava a traçar o percurso. Isso levou a um desenho mais criterioso onde, sem qualquer remorso, certos troços da N2 foram substituídos por outras estradas ou caminhos que me pareceram muito mais interessantes. O trabalho da primeira noite ficou por aí. Não enviei de imediato os ficheiros para o Tico pois na noite seguinte ainda iria recorrer ao flyby do GoogleEarth para confirmar que não havia pontas soltas no projecto. Teria ainda de lhe dar algumas dicas sobre como lidar com essas nuances do percurso.

Na segunda noite, como planeado, revi o percurso e, ao sabor do desenrolar do trajecto no monitor do PC, ia despertando aquele sentimento de quem “entrega um filho para adopção”. Caramba, isto tem potencial para ter muita piada… Apercebendo-se disso a família começou a incentivar-me. No dia seguinte liguei ao Tico a anunciar que tinha acabado de ganhar um guia para a viagem se tratasse de reservar alojamento também para mim. De momento restavam-me dois dias de concentração total no trabalho para deixar tudo em dia e poder antecipar uns dias as férias.

No Sábado de manhã demos a habitual volta. Nas calmas mas até um pouco mais longa do que o que seria aconselhável. À tarde combinámos o que íamos levar. Para aqueles que pensem efectuar o percurso e necessitem duma ideia, aqui fica o inventário.

Coisas comuns: o Tico levou as ferramentas; eu levei o protector solar (pequena embalagem de spray, já com apenas 1/4 do produto e validade expirada em Março), uma embalagem com um resto de pasta de dentes, um pedaço de corrente, um elo rápido, remendos e cola.

Cada um levou ainda uma bomba de ar, uma câmara, um kit de luzes e uma máscara para entrar em locais onde fosse necessária, atendendo às omnipresentes regras da Covid-19. Documentos, cartão de débito e telemóvel não podiam faltar. Levei ainda a pequena Canon numa bolsa ao peito, na minha opinião muito mais prática que o telemóvel para tirar fotos. O Tico levava a GoPro presa no guiador. O meu GPS utiliza duas pilhas AA pelo que tive de transportar o respectivo carregador assim como um carregador para o telemóvel. Para a Canon não achei necessário pois a bateria devia aguentar perfeitamente os 6 dias, como se veio a verificar. Na bicicleta transportávamos 2 bidons, que íamos enchendo conforme as necessidades de cada etapa.

Equipamento para pedalar: sapatos de estrada, meias, calções, jersey, corta-vento sem mangas (quando necessário), capacete e óculos. Equipamento para a noite: calções, t-shirt, corta-vento com mangas, uma cuecas e um par de havaianas (sabrinas, no caso do Tico).

A minha mochila

Para o transporte de tudo isto as opções foram diferentes: eu optei por transportar uma mochila às costas, o Tico optou por uma bolsa, que apelidámos de “chouriço” presa por baixo do selim. À frente falarei de novo sobre estas opções.

Prólogo, Delães a Chaves

A N2 liga Chaves a Faro mas o projecto do Tico implicava sair de casa. Uma espécie de prólogo de 150km de Delães até Chaves. Pelas 9h da manhã de Domigo lá nos encontrámos no sítio do costume e arrancámos sem qualquer celebração, como se nos dirigíssemos para apenas mais uma volta matinal. O Fontão também apareceu e acabou por nos acompanhar até à Póvoa de Lanhoso.

Escolhemos ir pela N103 pois pareceu-nos ser um trajecto mais directo e acessível, comparado com a alternativa Cabeceiras-Salto, bastante mais acidentada. Não acumularíamos tanto desgaste nas pernas.

A N103

Tratando-se dum percurso sobejamente conhecido por nós não houve novidades a registar. Mas cedo comecei a duvidar da opção de levar a mochila às costas. Uma moinha na zona lombar teimava em deixar-me desconfortável. Parámos em Ruivães para comer qualquer coisa e reparo noutro problema: tinha os sapatos de estrada com a boca aberta! Uns sapatos que me foram oferecidos, confortáveis e de que até gosto, mas que não primam pela qualidade de fabrico. O problema já tinha surgido pouco depois de os estrear mas julgava ter ficado resolvido depois duma visita ao sapateiro para aplicação de cola. Pelo vistos não ficou e, como é dever da Lei de Murphy, teria de se manifestar de novo precisamente no início desta jornada. Duvidei que aguentassem os 800km que restavam até Faro.

Eu e a mochila (foto Tico)

Tentei abstrair-me dos problemas mas com as costas a doer e os sapatos em desmoronamento aquele primeiro dia não estava a ser lá muito divertido. Só queria chegar rapidamente a Chaves e tentar arranjar alguma solução. Mas até um vento frontal e fresco, que me obrigou a vestir o corta-vento nos últimos kms, parecia querer atrasar esse objectivo. Mas lá chegámos a Chaves.

Confesso que só depois de me decidir a acompanhar o Tico é que soube da existência do passaporte para registarmos o nosso trajecto. Não fazia questão, bastava-me o prazer de pedalar e as fotos, mas lá fomos ao posto de turismo obter um livrinho amarelo para cada um. Admito agora que é uma recordação engraçada.

De seguida procurámos o alojamento que o Tico tinha reservado, uma agradável pensão bem no centro histórico, perto do castelo e começámos aquela que seria a rotina à chegada deste e dos dias seguintes. Tomar banho e lavar a roupa de ciclismo. Abordagem mais tradicional a minha, com lavagem no lavatório. O Tico optou por um 2 em 1, banho e lavagem de roupa simultâneo, numa espécie de pisar de uvas debaixo do chuveiro. Para ajudar a secar fomos recorrendo à “técnica do Major” que consiste em enrolar numa toalha e pisar bem o rolo obtido na esperança que a maior parte da água seja absorvida pela toalha. Depois era só tentar improvisar um estendal na janela e ter esperança que o vento ajudasse a terminar de secar.

Antes de arranjarmos um sítio onde comer e beber ainda fomos a tempo de encontrar uma tabacaria aberta e comprar uma embalagem de super-cola que utilizámos para voltar a colar os meus sapatos. A super-cola continuou a acompanhar-nos até Faro mas não foi novamente necessária pois cumpriu com excelência a sua função.

1ª etapa, Chaves a Viseu

Acordámos pelas 8:00, tomámos o pequeno almoço e pelas 9:00 estávamos a arrancar com as bicicletas. Havia também de ser essa, aproximadamente, a nossa rotina nas etapas seguintes.

Dirigimo-nos à rotunda onde se situa o marco do Km 0. Aquela hora já se encontravam lá alguns motociclistas a tirar a foto da praxe antes de partirem, também eles, em direcção a sul.

Km 0

Começámos a pedalar com muita moderação. Não sabíamos se as pernas estavam totalmente recuperadas do dia anterior e não sabíamos como iam reagir ao acumular das etapas dos próximos dias. Em breve começaram a desfilar no nosso caminho nomes ligados ao negócio da água: Vidago, Salus, Pedras Salgadas… Seria precisamente em Pedras Salgadas que faríamos a primeira paragem para carimbar os nossos passaportes. Seguiu-se Vila Pouca de Aguiar e Vila Real, onde parámos também no Burger King para almoçar.

Entretanto um ajuste nas alças da mochila que tinha feito na noite anterior parecia estar a resultar. Nem neste dia nem nos que se seguiram as dores lombares provocadas pela mochila voltaram a se assunto. Sendo assim não me arrependi da escolha, até porque, embora não sendo grave, o Tico também teve alguns problemas com a oscilação do “chouriço” e com o efeito do vento lateral no mesmo.

A tarde adivinhava-se quente mas supostamente seria sempre a descer de Vila Real ao Peso da Régua. Na verdade não é bem assim mas as dificuldades iam sendo atenuadas pela beleza da paisagem que se ia desenrolado aos nossos olhos e que nos fez parar algumas vezes para a contemplar e registar em foto. Por aquelas bandas parece que apostam em explorar o potencial turístico da N2, a prová-lo o marco comemorativo dos 75 anos da mesma existente em Santa Marta de Penaguião.

Peso da Régua. Depois de atestados os bidons com água fresca para a longa ascensão até ao alto de Bigorne, atravessámos o Douro e encetámos a primeira fase da subida até Lamego. Encontrámos um bom ritmo e rapidamente vencemos estes primeiros cerca de 10km. Pelo caminho ultrapassámos um outro ciclista que descansava ou telefonava numa sombra da estrada. Mais tarde verifiquei no Strava que tinha um projecto semelhante ao nosso.

Após mais uma rápida paragem para carimbar em Lamego reiniciámos a ascensão. Uma inclinação mais acentuada à saída da cidade foi gradualmente sendo substituída por outra mais suave. O piso degradou-se, prejudicando o rolar dos pneus e o meu físico também. Sabendo que possivelmente só íamos ter uma paragem em condições para reabastecimento em Castro d’Aire comecei a defender-me, andando no elástico, só o suficiente para não perder o Tico de vista. A táctica resultou e chegámos juntos ao alto. A descida até Castro d’Aire foi retemperadora assim como a pausa que fizemos na simpática pastelaria onde foi também possível colocar mais um carimbo no passaporte.

A natureza caprichou por aquelas bandas e a estrada, serpenteando entre vales, é protegida por arvoredo que a torna bastante fresca. Talvez demasiado fresca para quem descia envergando apenas uma jersey aquela hora da tarde.

Uma placa indicava um corte da estrada e sugeria um desvio. Curiosamente o track que eu tinha desenhado também sugeria esse desvio. Pelos vistos o Tio Google também era conhecedor do problema. Como desconhecíamos a extensão do obstáculo caso seguíssemos pela N2 resolvemos aceitar o desvio. Seria também uma oportunidade para conhecermos outros caminhos.

Foi engraçado. O desvio levou-nos para estradas secundárias e estreitas que não têm as mesmas preocupações com a qualidade do piso ou em poupar os utilizadores ao gradiente do terreno. Quase que passávamos pelos quintais das poucas habitações que por ali existem. Um miradouro proporcionava uma vista romântica sobre a vila que tínhamos acabado de atravessar.

Na aproximação a Viseu fomos brindados com uma série de 3 ou 4 subidas que nos “aqueceram a colaça” mas lá chegámos à cidade das rotundas e ao conforto do hotel para a rotina do costume: tomar banho, lavar roupa, comer e beber, descansar.

2ª etapa, Viseu a Pedrogão Pequeno

Lá arrancámos pela hora do costume. Desta vez a roupa não havia secado devidamente e foi com algum desconforto que a coloquei no corpo. Foi coisa de minutos, passado um km em cima da bicicleta já estava seca.

A etapa anterior, com mais de 170km de extensão, deveria ser a mais longa. Mas para esta etapa, embora mais curta, previa-se um acumulado de subida da mesma ordem de grandeza. Além disso uma análise prévia do gráfico de altimetria dava a entender que a maioria desse acumulado surgiria na segunda metade da mesma. Isso confirmou-se logo pela manhã com um trajecto bastante acessível. Atrevo-me a dizer que foi a etapa com o início mais suave de todas.

Esta foi também a etapa onde pela primeira vez o trabalho de casa no desenho do trajecto começou a dar frutos. A partir de Tondela a N2 começa a ser uma paralela ao IP3, tornando-se depois de Sta Comba Dão numa pequena faixa de asfalto que mais se assemelha a um acesso de manutenção à via rápida. Depois, com a aproximação da Barragem da Aguieira, acaba por desaparecer. Víamos alguns motociclistas parados em cruzamentos indecisos sobre o sentido a seguir mas nós íamos avançando sem dúvidas, confiando no traço carregado previamente no GPS.

A seguir à barragem a N2 (ou IP3) segue durante alguns kms pela margem direita do Mondego mas nós optámos por seguir pela bucólica e deserta estrada da margem esquerda. Com mais alguns improvisos para evitar o IP, que incluiram algum sobe-e-desce e talvez alguns insultos também, lá voltámos à N2 na aldeia de Raiva (esta fica na margem esquerda do Mondego, não confundir com a outra, as muitos kms dali, na margem esquerda do Douro).

Foi também aí que resolvemos parar para almoçar e descansar um pouco. O sol estava quente e um restaurante de ar acolhedor na beira da estrada com várias carrinhas e camionetas estacionadas à porta prometia qualidade e preço baixo. Fomos atendidos por uma empregada que parecia assustada com a patroa exigente. A escolha não era muita. Optei pelas moelas e o Tico por lulas. Pode não ser a opção mais óbvia para quem pedala mas era o que havia.

Foi com preguiça que voltámos à estrada. Tondela seria o próximo “posto de picagem”. Só que Tondela fica na outra margem do rio, lá a meio da encosta, e nenhum dos dois achou que valesse a pena o dispêndio de energia e tempo. Contentámo-nos com o carimbo disponibilizado por uma bomba de gasolina logo ali na berma e seguimos viagem.

Uma viragem à esquerda e uma pequena mas inclinada subida anunciaram também uma inflexão nas características do percurso. Pouco depois passávamos em Vila Nova de Poiares que, pessoalmente, me surpreendeu por uma aparente animação industrial que não esperava encontrar no interior do país. Ainda que os desníveis não fossem acentuados, começávamos agora a percorrer uma estrada com características de montanha, serpenteando por encostas com panorâmicas sobre vales que se estendiam até onde a vista alcançava.

Chegámos a Góis, localidade onde só tinha passado uma vez quando há 7 anos atrás participei num Granfondo pela serra da Lousã. Na altura não devo ter apreciado devidamente pelo que para ambos foi como se fosse a primeira vez. Ficámos agradavelmente surpreendidos e com vontade de voltar. Passámos por vários locais fantásticos ao longo desta viagem mas Góis reúne unanimidade quanto à impressão que deixou.

A longa subida que se seguia, pela encosta da serra da Lousã, convidava a acelerar o ritmo mas, consciente e voluntariamente, tivemos o bom senso de baixar a cadência. Isto não era o tradicional passeio de Sábado, amanhã e nos dias seguintes haveria mais e era necessário dosear o esforço.

Passada a cumeada seguiu-se uma agradável, rápida e sinuosa descida que nos levou ao marco do km 300 onde parámos para o assinalar. Um pouco à frente parámos no destacamento de Alvares dos bombeiros de Góis onde obtivemos o carimbo desse km 300 e aproveitámos para reabastecer os bidons com água fresca.

O sobe e desce que se seguiu até Pedrogão Grande trouxe um desgaste inesperado, atenuado pela passagem pelas localidades de Picha e Venda da Gaita, cujas placas despertam sempre um sorriso maroto e distraem o cansaço.

Em Pedrogão Grande carimbámos o passaporte no quartel dos bombeiros. Quando lhes dissemos que tínhamos alojamento do outro lado da barragem, em Pedrogão Pequeno, começaram a rir. No hotel? Exactamente, respondemos. Então quando forem a atravessar a barragem olhem lá para o alto, não tem que enganar. Era verdade. Vimo-lo de imediato. Aquilo era uma espécie de Kehlsteinhaus (o Ninho da Águia de Hitler), situado lá no alto, sobranceiro à estrada e à albufeira. Claro que teríamos de trepar, e bem, para vencer aquelas últimas centenas de metros. Uma espécie de calvário no final do dia, devidamente assinalado pelas cruzes na beira do caminho que indicavam a aproximação duma capela erigida no mesmo cume. Insultei o Tico pela escolha enquanto ziguezagueávamos rampa acima e fiz questão de fazer notar à recepcionista que aquele hotel não era nada “bike friendly”.

Depois daquela surpresa resolvi, depois de jantar, verificar onde ficava exactamente o alojamento no final da etapa do dia seguinte, que devia terminar em Montargil. Em boa hora o fiz pois o Tico, inadvertidamente, tinha marcado o alojamento para Ponte de Sôr, 24 kms antes! Podíamos parar em Ponte de Sôr mas a etapa ia ficar um pouco curta e a do dia seguinte ia ficar ainda mais longa. Pegámos no smartphone e começámos a procurar alternativas. Deparámo-nos com uma interessante no Couço. Implicava um desvio de alguns kms da N2, a seguir a Montargil, mas não havia necessidade de voltar para trás pois podíamos apanhá-la de novo um pouco à frente, em Mora. Além disso, segundo o Street View, pareciam tratar-se também de estradas agradáveis pelo meio da planície ribatejana. Como ainda não era demasiado tarde, telefonámos e reservar o novo alojamento e a cancelar o anterior.

3ª etapa, Pedrogão Pequeno a Couço

Pedrogão Pequeno fica junto a Pedrogão Grande, na margem esquerda do Rio Zêzere, mas pertence ao conselho da Sertã. Julgo que a informação poderá ser importante para o leitor desta crónica. Quem sabe não será esta a resposta correcta para o prémio de 50000 euros num qualquer concurso televisivo. Ou que o Rio Ceira passa em Góis. Viajar, já se sabe, melhora a nossa cultura.

O nosso país tem coisas fantásticas em todas as regiões mas há coisas que são mais fantásticas numa região que noutra. Sou de opinião que só há pão digno desse nome do Mondego para baixo. Para norte há muita variedade de “pão” mas nenhuma delas se aproveita, nem mesmo aquela coisa dura e escura feita de farinha de milho de que alguns conterrâneos tanto se orgulham. Outra coisa que se destaca do Mondego para baixo é o cheiro da vegetação quando o Verão se aproxima. E nesta etapa começámos finalmente a sentir com intensidade esses odores.

Felizmente que por aquelas bandas o IC8 deixou a N2 imaculada e assim pudemos desfrutar dum passeio agradável pela tranquilidade da estrada apenas interrompida pela passagem pontual de mais alguma moto de outros viajantes a efectuar o mesmo percurso que nós. Uma constante ao longo das etapas que durou esta viagem.

Paragem na Sertã para mais um carimbo, reabastecimento e regresso à estrada para uma agradável ascensão pela N2 original visto que a N2 actual entre a Sertã e Abrantes é uma via rápida sem qualquer interesse para ciclistas. Terminada a subida chegávamos aquele que era para mim um dos pontos mais aguardados da viagem, onde iria dar asas à criatividade para desenhar percursos. Estávamos num cruzamento, à direita tínhamos indicação de que seguia por ali a N2, para sul, mas, como foi referido trata-se duma via rápida de pouco interesse. À nossa frente tínhamos o desconhecido, a N244 que tinha ali o seu km 0. Claro que foi por aí que seguimos.

Que bela surpresa se revelou esta estrada. Mais acidentada que a N2 mas com paisagens deslumbrantes numa região onde não abunda a presença humana. Desde logo começámos a elaborar planos de registar o exclusivo dos passaportes para que quem a venha a visitar tenha de nos pagar royalties por cada carimbo. Fomos seguindo, tirando fotos e inalando o cheiro do rosmaninho, mas acabámos por deixar esta estrada e divergir para oeste, a caminho de Vila de Rei, através de estradas ainda mais acidentadas, de piso nem sempre imaculado e atravessando aldeias dispersas despovoadas de gente.

N244

O calor do meio do dia fazia-se sentir quando chegámos a Vila de Rei. Julgo que é da praxe para quem percorre a N2 visitar o Picoto da Melriça, onde se situa o centro geodésico de Portugal. Já lá tinha ido de carro e lembrava-me bem como aqueles últimos metros de subida tinham custado ao pobre motor de 80cv. Seria a minha retribuição ao Tico da chegada ao hotel do dia anterior, pelo que valeu a pena retroceder 2 km pela já várias vezes aqui referida via rápida e fazer o desvio para ir lá acima.

Picoto da Melriça, centro geodésico de Portugal

Tal como outros turistas que por ali pululavam também nós tirámos as nossas fotos para recordação após o que nos lançámos ladeira abaixo, sem que antes tivéssemos ali obtido mais um carimbo. Paragem numa pastelaria da vila para comer qualquer coisa e repor o nível dos bidons.

Conhecia relativamente bem o troço de estrada que se seguia pois tinha-o percorrido, de carro, algumas vezes durante as férias do ano anterior. Embora não esteja sinalizada o seu acesso e a sua existência, para quem vem na N2 actual, a N2 original entre Vila de Rei e o Sardoal é um prazer para o ciclista e não só. Inicialmente parece que alguém a quer manter secreta. Não existem indicações mas se entrarmos nela os primeiros marcos que encontramos até estão pintados de branco, como se sinalizassem uma estrada fantasma. A estrada, estreita e sinuosa, vai-se desenrolando por entre encostas e vales. Paragem obrigatória no miradouro do Penedo Furado, com vista para a praia fluvial, os passadiços e um dos vários braços da Albufeira de Castelo do Bode. Umas centenas de metros à frente o início da subida assinalava também a entrada no distrito de Santarém, mais precisamente no concelho do Sardoal. Os marcos indicavam agora “N358-3, antiga N2”.

A estrada continuou a deslumbrar-nos até ao Sardoal onde parámos para mais um reabastecimento e carimbo num simpático café cuja funcionária nos afiançou ter o edifício mais de 300 anos. Acreditámos pois toda a vila parece estar ali implantada há vários séculos.

Podíamos agora seguir pela N2 oficial até Abrantes mas a memória que tinha do ano anterior, quando lá passara de carro, era de mais uma estrada com características de via rápida fazendo a aproximação à cidade pelo meio de indústrias e trânsito de camiões. Tinha no entanto uma alternativa na manga. Perguntei ao Tico se estava comigo. Claro que se tratava de simples retórica pois já sabia a resposta. Assim divergimos mais uma vez para oeste através duma estrada municipal que nos permitiria apanhar na localidade de Sentieiras a também estrada municipal que liga Carvalhal a Abrantes. O problema foi que essas duas estradas não se encontram à mesma cota e assim, à custa de bom suor, julgamos ter inaugurado o Mur de Sentieiras. Pelo menos daí até Abrantes foi sempre a descer e à entrada da cidade tivemos a agradável (pelo menos para mim) vista da Casa de Benfica de Abrantes.

Não queríamos prolongar ainda mais o tempo de viagem pelo que optámos por não visitar o centro da cidade, que fica numa cota mais alta. Assim dirigimo-nos de imediato à travessia do Tejo tendo o carimbo sido obtido à face da estrada, no simpático Retiro do Camionista.

As grandes rectas a sul do Tejo

Com a passagem para o sul do Tejo mudou também a tipologia da estrada. Começaram a aparecer as primeiras longas rectas, primeiro entre campos de regadio, depois entre plantações de pinheiro manso, sobreiro ou mesmo eucalipto. A excepção foi uma curta mas trabalhosa “mudança de nível” na localidade da Bemposta.

Assim chegámos aos arredores de Ponte de Sor. Um carimbo que coincidiu com uma paragem rápida e ala que se faz tarde. Oiço o Tico atrás de mim a falar com alguém. Volto-me e era um companheiro de pedaladas ali da zona a fazer a sua volta vespertina. Disse que era um treino de descompressão por isso se quiséssemos a sua roda até Montargil éramos bem vindos. Foi o melhor que nos podia ter acontecido. É que de Ponte de Sor a Montargil foram praticamente 24 kms de recta com o vento a açoitar-nos essencialmente de lado, por vezes de frente. A roda foi uma ajuda e a conversa uma distracção, sendo que nos foi informando de algumas temas relacionados com a escola de aviação ou com a exploração turística da albufeira. De notar que usando ele um equipamento da Education First e o Tico atrás dele com o “chouriço” pendurado veio-me à memória aquele popular vídeo do Rigoberto Uran e do agricultor.

O “Rigoberto”

O nosso companheiro, de seu nome André, deixou-nos em Montargil e nós também deixámos a N2 pois tínhamos agora de percorrer apenas mais 10 km até ao nosso destino de pernoita, na aldeia do Couço, onde chegámos pouco depois.

Cumprida a rotina do banho e da lavagem da roupa fomos à procura de um restaurante para jantar. A aldeia é pequena e a escolha não era muita mas, para piorar a situação, por um motivo ou outro todos os restaurantes estavam encerrados. Vimos a coisa mal parada pois estávamos mesmo com fome. Mas foi a melhor coisa que nos podia ter acontecido. Resolvemos entrar no café do Bexiga e perguntar se havia alguma coisa que comer. Só se for bifanas, disse ele de forma desprendida. Pode ser, respondemos. Que rico final de dia ali passámos, no meio dos indígenas que assistiam à miserável exibição do meu Benfica na TV. Não foi apenas uma mas sim duas bifanas para cada um, naquele divinal pão ribatejano, acompanhadas por imperiais, que fino é coisa de galego.

Estávamos reabastecidos. Voltámos ao quarto para descansar. Antes de adormecer entretive-me no telemóvel a pesquisar personagens alentejanas, ou que pelo menos eu associava ao Alentejo, para ver ser iríamos passar nas suas localidades: Vitorino, Catarina Eufémia, Mafalda Veiga, Florbela Espanca… não sendo eu conhecedor de poesia, proporcionou-se a curiosidade de ler um pouco sobre a sua biografia e a sua obra na Wikipedia.

Não tenhas medo, não! Tranquilamente,
Como adormece a noite pelo outono,
Fecha os olhos, simples, docemente,
Como à tarde uma pomba que tem sono…

E pouco depois devo ter adormecido…

4ª etapa, Couço a Ferreira do Alentejo

A manhã acordou mais fresca e nebulada que nos dias anteriores. Até à data não nos podíamos queixar da meteorologia. Temperaturas amenas, perfeitas para pedalar. Umas nuvens ou mesmo um chuvisco não traria mal ao mundo. Chuva a sério já ia complicar as coisas pois não vínhamos preparados para a enfrentar. Mas tínhamos consultado as previsões e a probabilidade de chuva era baixa por isso só esperávamos que a sorte nos continuasse a acompanhar.

Saímos da aldeia do Couço mas em vez de nos dirigirmos de imediato à N2 resolvemos recuar um pouco para não deixar de conhecer a pitoresca vila de Mora e, já agora, obter mais um carimbo. Grupos de motociclistas tomavam o pequeno almoço em diversos estabelecimentos da localidade. Mais adiante haviam de passar por nós nas suas montadas mais ou menos majestosas. Havíamos de trocar algumas palavras com um grupo vindo de Braga, na paragem ritual no Ciborro para comemorar o marco dos 500.

Entrámos definitivamente nas estradas alentejanas, caracterizadas por longas rectas onduladas. Desenganem-se os que pensam que se trata dum paraíso para o ciclista. Na verdade o desnível não é grande e podemos tentar ganhar alguma velocidade na descida para tentar passar a subida seguinte em sprint. Isto podia ser viável meia dúzia de vezes mas ao trigésimo nono topo estaríamos totalmente esgotados. Assim limitamo-nos a um pedalar ponderado e paciente. Pedalamos a descer, para ganhar kms, pedalamos a subir, com contenção para não nos esgotarmos. Sempre a pedalar. A relação espaço-tempo começa a deformar-se e sem referências intermédias entre duas localidades ir de A a B parece demorar uma eternidade. Felizmente que a paisagem, essencialmente a tradicional planície onde estão implantados os tão falados montes alentejanos, tem variantes capazes de nos manterem encantados ao longo da viagem. As máquinas fotográficas não paravam de disparar em busca “daquela” foto.

Durante a paragem em Montemor-o-Novo surgiu o segundo problema técnico da jornada. O primeiro, conforme se devem lembrar, foi com os meus sapatos que depois de colados em Chaves não voltaram a ter problemas. E agora o problema era novamente nos sapatos! O Tico tinha perdido dois parafusos e por isso tinha uma travessa solta. A solução foi retirar um parafuso do outro sapato e prosseguir com apenas dois parafusos em cada travessa. Problema resolvido, aguentou até Faro. De notar que ao longo dos mais de 800km de viagem não tivemos qualquer problema ou avaria com as bicicletas. Nem furos tivemos, talvez por sorte ou talvez porque utilizámos resistentes pneus de 28mm, no meu caso, ou de 32mm tubeless no caso do Tico.

As paragens seguintes foram em Alcáçovas, para apreciar o centro da localidade, e no Torrão, em cuja entrada fizemos uma encenação para a foto numa antiga calçada romana ali existente. Enquanto o Tico obtinha mais um carimbo eu abrigava-me da chuva, que resolveu brindar-nos durante alguns minutos, e entretive-me a falar com o maluco da aldeia, uma celebridade do Preço Certo em Euros que me deu úteis conselhos sobre motos, caso algum dia venha a percorrer a N2 recorrendo a esse meio de locomoção.

E chegámos a Ferreira do Alentejo onde fomos recebidos de martelo na mão pela Ferreirinha, uma moçoila em bronze, de perna grossa e peito avantajado, pelos vistos muito popular por aquelas bandas, pelo que consegui apurar. Cumprida a rotina do banho e da faxina seguiu-se o jantar num restaurante local, que incluiu uma deliciosa sopa do cozido, e entretidos por um empregado falador mas que nunca deverei reconhecer se me voltar a cruzar com ele, culpa destes tempos em que todos têm de usar máscara.

5ª etapa, Ferreira do Alentejo a Faro

Esta jornada começou por ser uma continuação da anterior no que às característica da estrada e da paisagem diz respeito. O primeiro desvio foi para conhecer o centro da animada vila mineira de Aljustrel. À saída ainda houve tempo para umas fotos na antiga linha de comboio, inaugurada em 1929 com o objectivo principal (mas não único) de escoar o minério mas entretanto desactivada.

Seguiu-se Castro Verde, concelho onde se situa a Mina de Neves-Corvo. Curiosamente é em Almodovar que se situa um imponente monumento evocando os mineiros. O corpulento mineiro com uns 10m de altura e braço estendido fez-me lembrar de imediato imagens que vi em tempos, e que me impressionaram, do monumento à Mãe Pátria, em Volgogrado. Uma pesquisa posterior deu-me a conhecer o nome de Aureliano Marques de Aguiar, autor desta e de outras obras existentes no concelho, inclusive um apocalíptico carro de bombeiros em escala real que também havíamos fotografado uns minutos antes.

Mais para a frente o cenário mudou radicalmente. Entrámos no distrito de Faro e a planície alentejana deu lugar ao ondulado da serra do Caldeirão. Para mim uma das zonas mais bonitas dos 800km de percurso. Íamos subindo mas quase não nos apercebíamos, tal a suavidade do piso e a beleza da paisagem circundante. Por vezes também descíamos a grande velocidade por sequências de curvas que mesmo assim nos permitiam largar os travões. As motos e agora também as Vespas continuavam a passar por nós com regularidade.

Uma paragem no Miradouro do Caldeirão permitiu-nos meter conversa com um desses grupos de “vespistas” com quem já nos tínhamos cruzado pela manhã em Aljustrel. Ficámos a saber que vinham de Fafe. Arrancámos antes deles mas passados alguns kms lá voltaram a passar por nós, lançados em direcção a Faro.

A passagem pelo Barranco do Velho trouxe-me recordações das transmissões da Volta ao Algarve. Nunca cheguei a ter a noção de onde se situou o topo da serra pois andámos por lá num sobe-e-desce constante que só se tornou numa descida mais longa já muito perto de São Brás de Alportel, localidade onde parámos para um penúltimo carimbo no café da divertida Cristina que fez questão de serem os nossos passaportes a “tirar os três” (palavras dela) ao carimbo entregue em mão naquele mesmo dia por um funcionário da autarquia, depois dela própria ter reclamado em sede própria do absurdo que era terem desviado o trajecto da N2 para uma espécie de variante que contorna a vila, desviando potenciais turistas do centro da localidade. Claro que nós íamos a seguir o percurso original, mesmo contrariando sentidos proibidos e impedimentos por obras, pelo que parámos mesmo no café da Cristina.

Daqui até Faro a única recordação agradável foi a sensação de estar quase a cumprir o objectivo. Um vento frio e despropositado teimava em nos fustigar, inicialmente de frente e a certa altura de lado, obrigando-nos a segurar o guiador com firmeza para não ziguezaguear na estrada de trânsito mais intenso. A paisagem, subúrbio de cidade grande, também não tinha interesse. Restava-nos fazer a contagem decrescente dos kms.

E lá estava ele, o marco do km 738, numa rotunda no chão da qual tinha sido desenhado o mesmo número. O Tico dirigiu-se para o meio da rotunda, onde uma família assinalava também a conclusão da jornada. Entretanto outros viajantes haviam de chegar. Quanto a mim, deixei-me ficar alguns minutos em cima do passeio, à entrada da rotunda, encostado a um sinal de trânsito enquanto saboreava o momento. Eventualmente lá me juntei ao Tico para a foto da praxe.

Epílogo

Foi uma experiência extremamente agradável. Não gosto de lhe chamar aventura pois considero que uma verdadeira aventura tem de conter mais risco, dificuldade e imprevisibilidade. No nosso caso a única dificuldade foi pedalar aquela quantidade de kms. Mas há até quem o faça numa assentada, por isso… Risco e imprevisibilidade parece-me que estiveram sempre perfeitamente controlados, até a meteorologia foi piedosa conosco.

Pode parecer que o país é pequeno quando até dois tipos sem preparação especial o conseguem atravessar de bicicleta mas, paradoxalmente, quando recordamos a diversidade de paisagens e lugares que percorremos e fotografámos, parece enorme.

Restavam-nos ainda 11km de pedalada até Quelfes onde, tal como em tempos a Florbela, iríamos descansar em casa de gente amiga. No dia seguinte quem passou na estação de comboios de Faro pela hora de almoço talvez tenha reparado em dois tipos com aspecto indigente, devido às vestes com uma semana de uso, e duas trouxas toscas do que pareciam ser componentes de bicicleta, a aguardar o comboio para norte.

A nossa Nacional 2

Equilibrium

Uma das fórmulas  de sucesso que utilizo para provocar a minha filha é exprimir a ideia de que os médicos hoje em dia são, salvo algumas honrosas excepções, uns sonsos. Senhor doutor não ando bem do estômago. Aconselho-o a evitar as francesinhas. Sôtor, e este incómodo na virilha? Muitas horas no selim, devia deixar a bicicleta. Mas posso jogar ténis? É melhor não… esse cotovelo já não vai para novo. O remédio proposto é sempre parar. Complemento a provocação elogiando os médicos de antigamente: esses sim, eram arrojados e proactivos. Faziam sangrias e lobotomias! A eficácia podia não ser a melhor mas pelo menos dava ao paciente aquela ilusão de que algo estava a ser feito para resolver o seu problema.

Quando o planeta é assolado por uma pandemia viral os médicos são chamados para dirigir as operações. Afinal são eles os especialistas. Resultado: instruções para ficarmos em casa, o tão comentado isolamento social. À primeira impressão até nem devia ser algo que me incomodasse muito. O meu filho costuma dizer, por detrás dum sorriso maroto, que ninguém deve estar tão bem preparado como eu para este confinamento. Afinal, diz ele, andei 50 anos a preparar-me para isto. Uma alusão às minhas débeis capacidades de convivência e ao prazer em passar horas isolado, embrenhado nos meus assuntos. Mas uma coisa é um tipo estar sozinho, sem ninguém que o incomode, outra é começar a ter a sensação que se está a tornar uma personagem daquele filme Equilibrium e que em qualquer altura nos pode entrar o Christian Bale pela porta adentro para nos punir por não termos tomado o comprimido da obediência às imposições dum qualquer grande irmão.

Às vezes duvido se me preocupa mais o vírus ou as consequências deste travar a fundo de toda a actividade. Parece que a doença, embora de forma errática, é grave e mata. Mas também este controle a que nos querem sujeitar não é grande vida. Se, como dizem, mais tarde ou mais cedo todos nós vamos ser contaminados então não seria melhor despachar já o assunto?… Não sou assim tão asno, já percebi que a doença  pode necessitar de cuidados complexos que seriam insuficientes se ficássemos todos contaminados ao mesmo tempo. Mas não deixo de ter uma pontinha de inveja daqueles que já se curaram e que esperemos, pois ainda falta confirmar, tenham ficado imunes. Se assim for, já estão despachados.

Mas porque é que estou a escrever isto num espaço dedicado às bicicletas? Começo por dizer que era algo que queria evitar. Estou farto do tema e de ouvir opiniões e o seu contrário. Fujo das conversas e desligo os noticiários. Não queria ser mais um a dar palpites. Mas o tema é tão avassalador que se torna difícil fugir-lhe. E chega também às bicicletas, começando a haver um cisma entre aqueles que defendem o confinamento total e os que mantém a actividade pedalante no exterior.

Admito que sou um dos que tem continuado a sair para pedalar. Espero que esta confissão não seja válida como prova do meu crime. Não quero problemas com o Clérigo Preston. Faço-o porque não compreendo tanta restrição. Em que é que uma volta solitária ou mesmo acompanhado por outra pessoa, mantendo o tal afastamento necessário, pode comprometer esta luta? Tem razão de ser o argumento de que um acidente com necessidade de atendimento hospitalar é uma sobrecarga desnecessária para os serviços de saúde. Mas aí cabe-nos a nós ter cuidados redobrados e limitar manobras mais arriscadas. O risco continua a existir mas, que diabo, existem mil e uma formas de ter um acidente a fazer qualquer coisa em casa.

Também não aceito a alternativa dos rolos. Devo ter uns encostados ali num canto da garagem, portanto não é porque não tenha que não me agrada essa proposta. É porque não é a mesma coisa, não me venham cá tentar convencer do contrário. Aquilo pode satisfazer quem gosta apenas de dar aos pedais mas nunca poderá satisfazer quem gosta de andar de bicicleta.

Portanto, aos beatos do confinamento a 100%, aos senhores das frases feitas de auto ajuda e dos hashtags, peço que… não chateiem! Nós alinhamos de bom grado no fundamental que é o isolamento: vocês na vossa vida e nós na nossa. E se a nossa atitude estiver errada, por oposição à da manada, cá estaremos para arcar com a responsabilidade.

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Equilibrium

Abril

O final deste mês de Abril proporcionou algumas pedaladas de qualidade. Mais de 200 quilómetros a solo, com passagem pelo Marão e pelo Alvão, proporcionaram um bom dia de… introspecção. O teste a uma das “subidas épicas” foi um dos pontos de interesse do dia que permitiu confirmar que passados 15 anos o Homem da Marreta ainda continua à espreita nas encostas de Barreiro. Nem uma avaria na mudança da frente, já no regresso e que impeda o uso do prato grande, conseguiu estragar o dia. Resolvida numa… carpintaria! Quase de seguida achámos, eu e o Tico, que depois de tanto asfalto era altura de confirmar que ainda sabemos andar fora de estrada. Confesso que não era a minha primeira ou segunda escolha mas ainda bem que seguimos a vontade dele indo até Valongo. Seguindo um trajecto já conhecido, conseguimos improvisar bastante sem nos metermos em becos sem saída, o que é raro, completando um percurso de grande qualidade. Uma bela dor de pernas foi o corolário de um dia onde mais uma vez se ouviu a justificação “(…) vamos pelo monte, que pela estrada é muito monótono (…)”.

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N304, Serra do Alvão, 25.4.2018

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Valongo, 28.4.2018

Abril

Igrejas de Terras do Bouro

Finalmente uma trégua meteorológica para desfrutar do plano que aguardava há já algumas semanas na gaveta: fotografar as 19 igrejas paroquiais do arciprestado de Terras de Bouro. Nenhum motivo religioso me move, no entanto parece-me excelente o pretexto de visitar igrejas para desenhar um percurso de bicicleta, ideia que uma vez resolvi copiar do Joel Braga (mérito a quem o merece). Ficamos a conhecer muitos locais e muitas estradas que normalmente ficariam fora das escolhas habituais. Além disso, salvo algumas excepções, as igrejas costumam ser edifícios interessantes para fotografar. A primeira experiência tinha sido em Santo Tirso, de BTT, e a segunda tinha sido em Cabeceiras, de roda fina. Recordava agora ambas como boas experiências que queria tornar a repetir.

Ao estudar os mapas para preparar este projecto, e à medida que ia desenhando o percurso, comecei a verificar que, além da dificuldade derivada da orografia do terreno, também iria haver um interessante desafio psicológico provocado por diversas mudanças de sentido no percurso, com regressos ao mesmo ponto, ou lá perto, quando seria mais fácil continuar em frente. Mas não precisava de enfrentar sozinho essas dificuldades. O Tico ia acompanhar-me e a ele pouco interessam as dificuldades, nem as quer saber de antemão. Pergunta apenas a hora de partir e segue o caminho que lhe indicarem.

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Rio Caldo (São João Baptista)

O local de partida escolhido foram as pontes sobre a albufeira da Caniçada. Pouco mais de um quilómetro tínhamos pedalado e já se parava para a primeira foto na igreja de Rio Caldo. Daí seguimos para a próxima, Valdozende, onde chegámos com relativa facilidade apesar daquele desconforto matinal provocado pelos músculos ainda frios. Característica distintiva dessa igreja é o enorme sino que se encontra no átrio. Piadas brejeiras surgiram devido ao tamanho do seu badalo.

Tivemos logo depois oportunidade de realizar a boa acção do dia. Uma tripulação da Cruz Vermelha tentava, em vão, retirar a sua ambulância da posição em que se encontrava, entalada numa curva de desnível acentuado, sem ângulo para avançar e sem tracção para recuar. Resolvemos ajudar, com instruções para o motorista e com a colocação de pedras para calçar as rodas. Depois de algum esforço lá saiu daquela posição e pode continuar o seu caminho.

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Santa Isabel do Monte (Santa Isabel)

Quanto a nós, aguardava-nos a primeira dificuldade do dia, a subida a Sta Isabel do Monte. Uns dias antes, ao estudar o percurso, ocorrera-me classificar aquela que seria a dificuldade esperada para chegar a cada uma das igrejas e esta estava classificada como vermelha. Já conhecia a subida mas das outras vezes sempre com mais quilómetros acumulados nas pernas. Talvez por isso desta vez me tenha parecido bastante mais fácil, ainda que a inclinação do troço final nos faça sempre lutar com os pedais.

Mais uma igreja. Enquanto eu me entretia a procurar o melhor enquadramento para as fotos o Tico cumpria aquilo que se confirmou como um ritual para o dia: contornar vagarosamente o edifício a pedalar. Quando nos preparávamos para seguir caminho uma manada de vacas apareceu, numa fila quase perfeita, talvez em direcção ao estábulo. Encostámo-nos às bicicletas e ficámos ali uns minutos a apreciar a sua pachorrice e a divagar sobre o valor da vida sem preocupações.

Depois duma inclinada descida, que me fez recordar que necessito verificar os calços dos travões, chegámos à quarta igreja do dia, Chorense. Aquela hora as nuvens deixavam passar o sol que iluminava toda a encosta e era reflectido nas paredes brancas do edifício. Boas condições para fotografar, saiba o fotógrafo aproveitá-las.

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Chorense (Santa Marinha)

Encontrava-me no átrio, uns metros acima do nível da estrada onde alguns ciclistas seguiam arfando encosta acima. Pareceu-me reconhecer um deles e por isso fiz um teste: “Brasa!”, gritei. Ele olhou, disse qualquer coisa e seguiu. Esbocei um sorriso. Na verdade não tínhamos nada para falar e aquele era o Brasa que sempre conheci, obcecado em pregar o vizinho da rua em qualquer segmento do Strava. Claro que nunca pararia a meio duma subida

As igrejas que se seguiram, Balança, Ribeira e Souto, não tiveram grande história. Percurso essencialmente descendente por estradas tranquilas. O arvoredo deve torná-las agradáveis em dias de verão mas naquela altura o que desejávamos era alguma subida da temperatura. Foi também no bar da paróquia da Ribeira de São Mateus que fizemos a primeira pausa para reabastecer.

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Ribeira (São Mateus)

A descida terminou finalmente na N205, no vale do Rio Homem, que atravessámos pela primeira vez no dia. Por mais três vezes o iríamos fazer. Havia que visitar as igrejas de Valbom e Valdreu antes de visitar finalmente a de Moimenta-Covas, que é esse o nome da igreja paroquial que fica no centro da vila de Terras do Bouro. Também é essa a mais moderna, com uma arquitectura que, não sendo entendido, me pareceu das últimas décadas do séc. XX e, para mim, pouco interessante.

Seguiu-se o início do teste à determinação em cumprir o plano. Para visitar as igrejas seguintes, Vilar e Chamoim, era necessário subir alguns quilómetros da N307 para depois voltar para trás e seguir outro sentido. Optámos por visitar primeiro Chamoim, alterando a ordem inicialmente prevista. Na brincadeira disse ao Tico que aquela ia fotografar de longe, pois construiram-na no final duma inclinada descida de empedrado que nos deu trabalho durante alguns minutos para escalar de volta à estrada principal.

Voltámos para trás, descendo de novo em direcção a Terras de Bouro. Rápida paragem em Vilar para registar mais um objectivo e, um pouco mais a baixo, viragem à direita para mais uma travessia do Homem. Demorámo-nos um pouco a apreciar o rio e as pontes, tirando mais umas fotos. Ao lado um pescador preparava o equipamento. Aquele hobby a que eu e o Tico tanto ansiamos dedicar-nos… quando estamos empenados.

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Vilar (Santa Marinha)

Começava agora o terreno verdadeiramente acidentado. Primeiro a subida a Gondoriz, com inclinações razoáveis, sabendo que de seguida se volta para trás, descendo parte do que se subiu. Depois uma subida mais longa até Brufe, com paragem em Cibões. No final pareceu-me que o Tico acelerou um pouco o ritmo e comecei a não seguir muito confortável, com as costas a doer e a respiração mais ofegante que o desejável. É talvez a única queixa que tenho dele, o controlo do ritmo: ou se deixa “adormecer” e fica para trás parecendo esquecido de que temos um trajecto para cumprir, o que consegue ser por vezes bastante irritante, ou depois lembra-se e vai por ali fora, deixando um tipo sem ar.

Foi com agrado que vi Brufe aparecer a seguir a uma curva pois durante os próximos quilómetros poderíamos recuperar forças. A descida para a barragem de Vilarinho das Furnas proporciona vistas impressionantes mas o frio que se fazia sentir abafou um pouco essa magia.

Parámos no Campo do Gerês para o segundo reabastecimento do dia antes de visitarmos a respectiva igreja. O Tico tinha-se esquecido do dinheiro dele, o meu também não era muito, e por isso tivemos de contabilizar bem os trocos disponíveis para não ter de ficar a lavar pratos.

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Carvalheira (São Paio)

Seguiu-se a Carvalheira, talvez a visita que me despertava mais curiosidade pois nunca tinha percorrido aquela crista. A ida presta-se a algumas vistas fantásticas. Já no após seguiu-se uma descida, que no sentido oposto deve dar um belo desafio, e que só terminou na travessia da Ribeira de Rodas, junto às Águas do Fastio.

Chegámos de novo à N307. A curta distância avistávamos a igreja de Chamoim onde tínhamos estado há umas horas atrás. Mas o próximo objectivo era subir até Covide. Já dentro da aldeia acabámos por ser surpreendidos por uma espécie de “Koppenberg” que nos largou ofegantes junto ao local para mais um registo, o penúltimo.

Faltava apenas Vilar da Veiga, a ligação mais longa, 19 quilómetros. Situada numa cota baixa, já na descida para o ponto de partida. O trajecto obrigava no entanto a subir, fazendo a travessia pelo cabeço da Calcedónia. É no entanto um caminho já bem nosso conhecido pelo que se percorreu com relativa facilidade.

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Vilar da Veiga (Sto António)

Estávamos finalmente de regresso ao ponto inicial. O percurso não foi muito longo, para bicicleta de estrada, mas o acumulado de subida foi apreciável. Cheguei com dores nas costas, no rabo e no corpo em geral mas com o objectivo cumprido e já com ideias para outros objectivos.

Fotos das 19 igrejas de Terras do Bouro

Igrejas de Terras do Bouro

Um café e um jornal

Sempre a mesma coisa, ainda mal saíra de casa e já punha em causa o que estaria a fazer ali. O frio da manhã não era confortável e as pernas não se queriam mexer. Arrancara já depois da hora ideal. Não que tivesse saído da cama demasiado tarde, o problema era o tempo que os “sistemas” demoravam a iniciar. Tudo parecia turvo, difuso e feito de forma atabalhoada. Acabara por sair para a rua com um pequeno-almoço fugaz. Já depois de fechar a porta e sem forma de entrar em casa sem acordar alguém, pois a chave ficara lá dentro, é que se apercebeu que não levava nada para repor energias ao longo da manhã. E que se calhar teria sido melhor ingerir alguma cafeína para despertar. Que se lixe, levava uns trocos no bolso, logo se veria.

Mas era um optimista. Já andava naquilo há tempo suficiente para saber que as primeiras sensações normalmente não são as que prevalecem. Às vezes arrancava cheio de ganas e regressava de rastos. Outras vezes era o contrário, podia ser aquele fosse um desses dias. Por isso tratou de controlar o ritmo e aguardar pacientemente que as boas sensações despontassem.

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Rio Bugio, Burgueiros, Fafe
Desta vez lançara alguns convites mas, de certa forma, já se arrependera. Negados ou simplesmente ignorados. Mas ainda bem que o vício era a bicicleta, imagine-se se fosse, por exemplo, o ténis, a desilusão que ia ser cada vez que não arranjasse parceiro. A bicicleta tinha esta característica maravilhosa de se puder desfrutar dela de forma egoísta, sem depender de ninguém.

Agora já pedalava por encostas mais soalheiras. Aqui e ali cruzava-se com um ou outro ciclista que lhe parecia sempre demasiado enfarpelado para a temperatura que se fazia sentir. Um carro fez-lhe uma tangente desnecessária que quase o atirou para a valeta. Logo a ele, que se gabava de até nem ter grande razão de queixa dos enlatados. Perseguiu-o, enquanto pode, estrada abaixo, brandindo o punho e soltando insultos, mais chateado por ter sido perturbado na sua meditação que propriamente pelo risco de ser projectado de cima da montada.

Um café na berma da estrada resolveu-lhe o problema do reforço. Sentou-se na esplanada com uma bica e um bolo à frente. Como dizia a canção da ex-namorada do ex-campeão, “soak up the sun”. Demorou-se por ali a ler uma entrevista que lhe chamou a atenção num qualquer jornal.

Gostava daqueles períodos de introspecção que a bicicleta lhe proporcionava. Ia olhando a paisagem à volta, sonhando com um dia em que iria viver para o interior, para a serra, e poder passar dias sem avistar vivalma ou ter de falar com alguém que não, eventualmente, a mulher, se porventura o acompanhasse. Por agora era em cima da bicicleta que conseguia estar mais próximo dessa realização. A leitura recente fazia-o pensar em George Hayduke. Gostaria ele de andar de bicicleta? E deixaria latas de cerveja vazias pela berma? Devia ser uma boa companhia. Pelo menos devia ser de poucas palavras e não haveria o risco de ir por aí aos berros e a dizer bacoradas.

Tal como tinha planeado no GPS, deixou-se perder nas estradas menos evidentes daqueles montes. Tinha planeado tirar algumas fotos do percurso mas não se sentia confiante nas suas capacidades para transpor para o sensor a beleza do que os seus olhos abrangiam. Uma tabuleta desviou a sua atenção do percurso planeado e deu consigo sobranceiro a um bucólico ribeiro. O alcatrão acabava ali e um caminho descia para o vale, afastando-se ao longo deste. Resolveu arriscar meter os pneus finos à terra e deu por si a atravessar o curso de água numa pequena ponte de pedra. Teria de ser ali que iria fazer o registo que daqui por uns anos lhe reavivaria as boas memórias daquele dia.

Apesar da inclinação e da ausência de pavimento não teve grande dificuldade em atingir a aldeia mais próxima onde voltou a encontrar pavimento. Reconheceu o sítio. Já ali tinha passado há muitos anos, quase de certeza na mesma altura do ano pois também, tal como agora, se recordava do agradável cheiro do fumo das queimadas para limpeza da mata.

Resolveu encetar o regresso que o levou por estradas em tempos bastante frequentadas por mulheres que não estavam ali para passear. Restavam duas. Nem sequer tinha restado aquela que durante anos cumprimentava os ciclistas em esforço e até emprestava a raça a um segmento do Strava. Sinais dos tempos, talvez, duma época em que tudo se quer politicamente correcto. Voltou a pensar em George Hayduke, cuspiu para o lado e carregou nos pedais de regresso a casa.

 

Um café e um jornal

Sem Gonçalo

Tinha na gaveta um percurso que tinha sobrado do #Festive500. Na altura não houve oportunidade para o realizar mas contava fazê-lo logo que possível. O leitmotiv era percorrer mais uma estrada escondida na montanha que, pelas informações recolhidas, parecia ser de grande beleza.

Enviei uma mensagem a desafiar o companheiro mais habitual. Ele retorquiu com um convite para mais uma ida ao S. Gonçalo. Tive a intuição que era para uma espécie de rally das tascas, algo a que sou bastante avesso. Amigo não empata amigo, cada qual iria ao seu destino.

Será pouco original nesta altura referir o frio que se fazia sentir quando saí de casa. Mas parece que com o passar dos anos o vou tolerando melhor. Mesmo a chuva, não fosse o desgaste que provoca no material, já não me chateia tanto como noutros tempos. O mesmo não se pode dizer de alguns outros adeptos do pedal com quem me ia cruzando, cujo equipamento parecia mais apropriado para uma expedição polar que para uma volta de bicicleta.

A estrada que procurava ficava para as bandas da Gandarela pelo que o percurso escolhido foi o tradicional Guimarães-Fafe-Lameira. Estava a planear utilizar a ciclovia mas obras de recuperação do piso fizeram-me desviar para a estrada nacional. A meio da subida da Lameira uma persistente chuva molha-tolos fez a sua aparição. Comecei a pensar que se lá em cima a temperatura baixasse bastante as condições iriam ficar desafiantes.

 

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Felizmente que as dificuldades nunca foram além do razoável e passados alguns minutos já me encontrava a descer para a Gandarela onde iria encetar o regresso, encosta acima, a caminho do Viso.

Cedo fiquei encantado quando entrei na estrada estreita que me tinha proposto explorar. Subia encosta acima, numa espécie de anfiteatro para os trabalhos nos campos e na vinhas. A escalada era efectuada por degraus. Pequenas rampas bastante inclinadas mas a que logo se seguiam zonas planas onde as pernas descansavam.  Se fosse sempre assim não ia ser difícil.

Mas donde raio saiu isto??? Não me apercebi destas curvas de nível nos mapas! O alcatrão desaparecera e uma rampa de inclinação absurda serpenteava pelo meio do casario. Meti a mudança mais leve e tentei pedalar em pé. De imediato a roda traseira começou a patinar na pedra húmida. Tentei seguir sentado mas a certa altura achei que não seria vergonha nenhuma se caminhasse um pouco. Os sapatos de estrada não são lá muito práticos para este tipo de deslocação, tentei facilitar pisando a relva da berma. Felizmente que o asfalto voltou a aparecer 20m à frente e, apesar da inclinação, já era possível pedalar novamente.

Já a uma cota mais alta, intervalada por alguns vales e até uma pequena represa, chego a um complexo habitacional em construção. Casas modernas com vedações em madeira tratada e algumas delas ladeadas por pequenos campos de futsal. Fiquei na dúvida se seriam de habitação própria ou algum complexo turístico. Seja como for, o lugar é fantástico.

Continuando a avançar, entronquei numa estrada que reconheci de outra incursão há longos meses atrás. A certa altura, depois duma curva, deparo-me com um guarda da GNR.  Estava a implementar segurança aos treinos dum piloto de rally (um tal de João Barros…). Fiquei por ali uns minutos à conversa e tive oportunidade de assistir a duas passagens do potente Fiesta naquela recta a cerca de 160km/h, segundo afirmavam alguns observadores no local.

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Despedi-me do guarda e, enquanto me afastava a caminho da Sra do Viso, ia ouvindo ao longe, atrás de mim, o ruidoso motor a ecoar pela floresta. Mais uma pausa para foto numa bucólica estrada e pouco depois estava na capela envolta pelo nevoeiro.

A partir daí foi seguir o caminho habitual de regresso a casa, por Felgueiras. As pernas não demonstravam grande frescura (falta de kms? frio?) mas já perto de casa, numa cota mais baixa e com a temperatura mais elevada, lá começaram a recuperar permitindo chegar a casa em boas condições.

 

Sem Gonçalo

Dia de reis, mas nem todos magros

Atendendo às agrestes condições atmosféricas dos últimos dias, e às previsões de agravamento, não me surpreendeu o convite que o Daniel me enviou a meio da semana para irmos pedalar para a montanha. Acha o caro leitor estranha esta conjugação de ideias? Passo a explicar. É aquele fascínio pela neve de quem não está habituado à sua presença. Havendo a hipótese de que esteja para chegar, lá corre o pessoal ao seu encontro. Uma observação mais atenta das condições meteorológicas logo me levou a perceber que a possibilidade de encontrar tal fenómeno era remota. Mas havia sempre o motivo supremo: pedalar.

Antes das 9:00 combinadas já todos nos encontrávamos na aldeia da Boavista, na berma da N15, tentando preparar o corpo para enfrentar em cima da bicicleta aquela temperatura gélida.

Os primeiros kms levaram-nos a percorrer caminhos pelo vale da Campeã. Apesar de atordoado pelo frio, ia repartindo a atenção entre memórias de outras incursões pelos mesmos trilhos e  discussões, por vezes profundas, sobre a natureza humana e as redes sociais. Não me tenho em grande conta quanto a ser um tipo popular mas, atendendo à quantidade de assuntos que o Jorge ansiava por discutir comigo, se calhar terei de rever em alta essa opinião.

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Todos os temas se desvaneceram perante a concentração e esforço necessários para vencer a subida que se seguiu. Foram largos minutos de ascensão onde cada qual se empenhou apenas no desafio que tinha pela frente. Por vezes penso se não seria essa a solução para todos os males do mundo, um valente empeno global. Ou isso ou sexo desvairado…

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Lá no alto encontrámos os conhecidos estradões das eólicas que tantas vezes nos tinham resgatado das entranhas do Alvão, na fase final de passeios épicos. Mas neste dia para o Alvão não avançaríamos mais. Em vez disso iríamos procurar outros caminhos que nos levariam à Sra de La Salette, em Vila Cova.

Um antigo complexo mineiro, mesmo ao lado da capela, deixou-nos curiosos e fomos investigar. Por sorte ou coincidência encontrámos um conhecedor do local que, qual guia turístico, dispôs do seu tempo para nos elucidar um pouco sobre a história daquelas minas de ferro, entretanto desactivadas.

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Terminada a visita seguimos então por caminhos rurais até ao alto do Velão. Mesmo com uns improvisos na navegação e um furo pelo meio, conseguimos avançar com fluidez. O gelo que frequentemente estalava debaixo das rodas é que não parecia incomodar a senhora que no tanque da aldeia lavava com mãos nuas a roupa da semana.

Por esta altura já tínhamos percorrido metade do percurso estimado e a hora ainda não era tardia. Meti um pouco de “veneno” sugerindo um desvio para as bandas de Campanhó, só para apimentar as coisas. A sugestão não pegou e continuámos no trilho previsto, a caminho do alto de Espinho. Recordações de há 10 ou 15 anos atrás acompanhavam-me ao longo da ligeira subida.

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Passámos a N15 para o outro lado e fomos percorrer um pouco da encosta do Marão. Uns seguiam na cavaqueira, outros entretidos a apreciar a paisagem. Esta parte do percurso enchia-me os olhos, com as grandes coníferas a dominarem. O GPS indicava que por baixo de nós estava o famoso túnel. Ao longe uma corsa esquiva desaparecia por entre a vegetação. Seria a mesma de há 7 anos atrás, num dia também muito frio na companhia do Major?

Voltámos a descer e a cruzar a N15 em direcção ao vale da Campeã. Mais uma surpresa: o vale é percorrido por um alegre ribeiro (cujo nome ainda não consegui descobrir) envolto na mesma vegetação luxuriante que abunda por aquelas bandas.

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Esta segunda parte do percurso estava a surpreender. Felizmente que o tal desvio por Campanhó não tinha ido avante, permitindo-nos aproveitar para apreciar com tempo estes caminhos. É que, com o aproximar da tarde, o vento fazia a sua aparição e uma baixa de temperatura desagradável invadia-nos as extremidades do corpo.

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Aquele incentivo gelado fez-nos regressar de bom grado ao ponto de partida. Depois de alguma indecência em trajos menores na berma da N15 recolhemos ao conforto das viaturas só voltando a parar à entrada de Amarante para recuperar o estômago na Tasca do João.

Dia de reis, mas nem todos magros