A longa marcha da cama até à garagem

Quando era pequeno julgava que era característica dos adultos conseguirem levantar-se cedo. Até há alguns anos atrás estava convencido que o avançar da idade me traria esse super-poder. A minha esperança tem-se gorado. Levantar pela manhã é sempre um sofrimento atroz. Ter-me-ei portado mal numa outra vida e agora estarei no inferno condenado para todo o sempre a esta tortura diária que é sair da cama? O problema é mesmo deitar-me tarde sistematicamente. Talvez se o dia tivesse mais horas o problema não se colocasse: poderia passar muitas horas acordado, dormir outras 10 e ainda ter algum tempo livre para calmamente despertar o corpo pela manhã. Encélado, uma das luas de Saturno, devia ser um bom sítio para viver…

Talvez tenham sido aqueles os pensamentos que me ocorreram no Sábado pela manhã. O entusiasmo do dia anterior tinha-se diluído na preguiça mas lá prevaleceu o espírito de missão e quem cruzou na estrada talvez se tenha apercebido do ciclista encolhido pelo frio gélido de Novembro. O vestuário era escasso, quase estival, nem luvas havia. O objectivo era não ser abafado com o calor durante o avançar do dia mas aquele início de manhã fazia ponderar o acerto da decisão.

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O percurso inicial foi o do costume: Taipas, Póvoa de Lanhoso, Gerês… Depois a sossegada subida para a Portela de Leonte. Como esperado, a natureza brindava os olhos com uma orgia de cores e luz. Infelizmente a gama dinâmica da pequena máquina fotográfica e a habilidade do fotógrafo não eram suficientes para capturar uma fracção dessa beleza.

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Passada a Portela do Homem o sossego continuava. Pretendia-se regressar a Portugal pela fronteira do Lindoso mas desta vez o caminho escolhido não seriam as estradas principais que convergem em Lobios. Uma pesquisa nos mapas mostrara uma alternativa mais pitoresca. Tão pitoresca que por vezes era necessário olhar melhor para distinguir a estrada do acesso a um qualquer quintal. Numa viela com o chão pejado de ouriços da castanha uma tabuleta num casebre anunciava a “Adega do Bogas”. Cá fora uma pipa vazia. A construção era velha mas a porta era sólida. A fechadura parecia nova o que me levou a conjecturar sobre que tesouros guardaria.

Reconheci uma estrada. Há muitos anos havia passado ali com o Major numa qualquer incursão de BTT. Já não me lembro se éramos só os dois ou se ia mais alguém mas recordo uma sensação de grande empeno… A beleza da paisagem devia-se à calma presente naquele sopé da serra Amarela. Árvores por ali havia poucas, tirando alguns pinhais logo no início que tinham sido castigados pelo fogo. Nas aldeias não se via vivalma, apesar de não parecerem abandonadas, longe disso, o que me deixou curioso quanto aos motivos.

De volta à estrada nacional os kms passaram num ápice. Cruzada novamente a fronteira, uma pausa em Paradamonte para reabastecer para o regresso. Não queria ir por Germil mas também não me apetecia fazer a monótona subida de Ponte da Barca para a Portela de Vade. A opção acabou por recair em Barral e Azias até Aboim da Nóbrega. Daí descer então para a Portela de Vade e rolar até casa.

Pedalando sozinho tinha conseguido moderar o ritmo ao longo do dia o que fez com que chegasse a casa apenas saturado das horas em cima do selim mas menos cansado do que já tem acontecido em saídas muito mais curtas.

 

A longa marcha da cama até à garagem

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