Em memória

Há quem diga que este ano de 2020 foi terrível por causa duma pandemia provocada por um vírus. Como isto é um blog pessoal posso escrever aqui o que bem me der na gana: estou cagando para a suposta pandemia e para a merda das regras que vieram a reboque. Segui algumas regras que me parecem razoáveis, segui outras para não melindrar quem não concorda comigo mas de resto fiz a minha vida normal, trabalhei da forma habitual e fui quase sempre e quando quis aos locais onde me apetecia ir. Por isso não recordo 2020 como um ano mau por causa da virose (embora talvez o venha a recordar assim por causa da resposta institucional à mesma).

Mas recordarei sempre 2020 como o ano em que morreu um amigo e uma referência. Assim, de repente, sem uma justificação. Já lá vão uns meses, pensei que o tempo iria dissipar o sentimento de perda mas tal não se tem verificado. Amanhã este texto não vai receber o seu comentário mordaz. Aquele telefonema ou e-mail que aparecia, assim do nada, de longe a longe a combinar um encontro à hora certa da manhã gelada numa qualquer beira da estrada remota, não se voltará a repetir. Nunca mais terei vontade de saborear as laranjas de Turiz.

Quando comecei a escrever este texto o objectivo era deixar aqui uns apontamentos e umas fotos relatando os dias de pedalada no período festivo. Mas o fluir da escrita levou-me a falar sobre este companheiro, talvez porque também durante essas pedaladas (e todas as outras desde a notícia da sua morte) a sua memória esteve sempre presente. Tudo o resto se tornou irrelevante, o primeiro parágrafo foi apagado, o título do post foi substituído e as fotos removidas. Apenas aqui fica esta memória digital, uma de muitas, obtida num daqueles dias mágicos, já lá vão uns bons anos. Até já, Major. Lá nos encontraremos para daí seguirmos juntos, como sempre, ritmo lento e poucas paragens.

Rui Appelberg Gaio Lima (1960 – 2020)

Em memória