Reinventar o prazer de pedalar

Durante a pedalada matinal de hoje dei por mim a pensar no porquê da bicicleta. De imediato me ocorreu um pensamento recorrente que em tempos verbalizava com frequência: andar de bicicleta é daquelas actividades que podemos praticar sem necessitar da companhia de ninguém! Não será a única. Logo me ocorre a pesca, aquela prática que me parece tão atractiva em momentos de grande empeno, lamentando profundamente nessas alturas não ter abraçado tão aprazível actividade em que ficamos sentados à beira rio a aguardar que a cana vibre.

Commuting no Parque Oriental da cidade do Porto

Ao longo dos anos tenho tido muitos companheiros de pedalada, incluindo daqueles que fazem juras de amor eterno à arte de dar ao pedal. Mas mais tarde ou mais cedo acabam por se afastar. Começam com as aparições irregulares às voltas de fim-de-semana, justificadas com um qualquer compromisso. Depois a desculpa de que é apenas uma situação temporária. E passa a definitiva. E lá voltamos ao “felizmente que andar de bicicleta é daquelas actividades que podemos praticar sem necessitar da companhia de ninguém”! Mas muitas vezes é mais agradável com companhia e esse constante “roer da corda” magoa. Ficamos mais amargos e desconfiados. Dantes, quando vinha à conversa com alguém o tema das bicicletas, desdobrava-me em histórias de como era divertido e incentivava o interlocutor a experimentar, sempre na esperança de obter mais um incauto. Hoje em dia já não tento recrutar ninguém. Mesmo com os parceiros que ainda vou tendo (incluindo o meu próprio filho) faço um esforço racional para não criar fortes ligações velocipédicas pois acredito que mais cedo ou mais tarde um qualquer compromisso os vai afastar. A solução tem sido ir reinventando a paixão, sabendo que só posso contar comigo. Não apetece BTT. E que tal a estrada? Ou talvez uma perspectiva diferente dos trilhos com uma singlespeed rígida… No último ando comecei a interessar-me pelo commuting, efectuando várias vezes por semana deslocações casa-trabalho. Não vou cair na hipocrisia de afirmar que o faço preocupado com questões ambientais ou económicas. Faço-o porque me permitiu mais uma vez reinventar o prazer de andar de bicicleta. Acho piada ao fluir pelo trânsito da cidade. Comecei a apreciar as ciclovias. Conheci caminhos pelo meio dos parques. Descobri que tanto me sinto desafiado a pedalar nestes ambientes como a subir o mais terrível caminho montanha acima. E é assim que tenho continuado a acumular quilómetros em cima do selim.

Reinventar o prazer de pedalar

Equilibrium

Uma das fórmulas  de sucesso que utilizo para provocar a minha filha é exprimir a ideia de que os médicos hoje em dia são, salvo algumas honrosas excepções, uns sonsos. Senhor doutor não ando bem do estômago. Aconselho-o a evitar as francesinhas. Sôtor, e este incómodo na virilha? Muitas horas no selim, devia deixar a bicicleta. Mas posso jogar ténis? É melhor não… esse cotovelo já não vai para novo. O remédio proposto é sempre parar. Complemento a provocação elogiando os médicos de antigamente: esses sim, eram arrojados e proactivos. Faziam sangrias e lobotomias! A eficácia podia não ser a melhor mas pelo menos dava ao paciente aquela ilusão de que algo estava a ser feito para resolver o seu problema.

Quando o planeta é assolado por uma pandemia viral os médicos são chamados para dirigir as operações. Afinal são eles os especialistas. Resultado: instruções para ficarmos em casa, o tão comentado isolamento social. À primeira impressão até nem devia ser algo que me incomodasse muito. O meu filho costuma dizer, por detrás dum sorriso maroto, que ninguém deve estar tão bem preparado como eu para este confinamento. Afinal, diz ele, andei 50 anos a preparar-me para isto. Uma alusão às minhas débeis capacidades de convivência e ao prazer em passar horas isolado, embrenhado nos meus assuntos. Mas uma coisa é um tipo estar sozinho, sem ninguém que o incomode, outra é começar a ter a sensação que se está a tornar uma personagem daquele filme Equilibrium e que em qualquer altura nos pode entrar o Christian Bale pela porta adentro para nos punir por não termos tomado o comprimido da obediência às imposições dum qualquer grande irmão.

Às vezes duvido se me preocupa mais o vírus ou as consequências deste travar a fundo de toda a actividade. Parece que a doença, embora de forma errática, é grave e mata. Mas também este controle a que nos querem sujeitar não é grande vida. Se, como dizem, mais tarde ou mais cedo todos nós vamos ser contaminados então não seria melhor despachar já o assunto?… Não sou assim tão asno, já percebi que a doença  pode necessitar de cuidados complexos que seriam insuficientes se ficássemos todos contaminados ao mesmo tempo. Mas não deixo de ter uma pontinha de inveja daqueles que já se curaram e que esperemos, pois ainda falta confirmar, tenham ficado imunes. Se assim for, já estão despachados.

Mas porque é que estou a escrever isto num espaço dedicado às bicicletas? Começo por dizer que era algo que queria evitar. Estou farto do tema e de ouvir opiniões e o seu contrário. Fujo das conversas e desligo os noticiários. Não queria ser mais um a dar palpites. Mas o tema é tão avassalador que se torna difícil fugir-lhe. E chega também às bicicletas, começando a haver um cisma entre aqueles que defendem o confinamento total e os que mantém a actividade pedalante no exterior.

Admito que sou um dos que tem continuado a sair para pedalar. Espero que esta confissão não seja válida como prova do meu crime. Não quero problemas com o Clérigo Preston. Faço-o porque não compreendo tanta restrição. Em que é que uma volta solitária ou mesmo acompanhado por outra pessoa, mantendo o tal afastamento necessário, pode comprometer esta luta? Tem razão de ser o argumento de que um acidente com necessidade de atendimento hospitalar é uma sobrecarga desnecessária para os serviços de saúde. Mas aí cabe-nos a nós ter cuidados redobrados e limitar manobras mais arriscadas. O risco continua a existir mas, que diabo, existem mil e uma formas de ter um acidente a fazer qualquer coisa em casa.

Também não aceito a alternativa dos rolos. Devo ter uns encostados ali num canto da garagem, portanto não é porque não tenha que não me agrada essa proposta. É porque não é a mesma coisa, não me venham cá tentar convencer do contrário. Aquilo pode satisfazer quem gosta apenas de dar aos pedais mas nunca poderá satisfazer quem gosta de andar de bicicleta.

Portanto, aos beatos do confinamento a 100%, aos senhores das frases feitas de auto ajuda e dos hashtags, peço que… não chateiem! Nós alinhamos de bom grado no fundamental que é o isolamento: vocês na vossa vida e nós na nossa. E se a nossa atitude estiver errada, por oposição à da manada, cá estaremos para arcar com a responsabilidade.

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Equilibrium

Pelas paróquias de Santo Tirso

Anos 80, aula de inglês dum qualquer ano do secundário, a professora pedia-nos frases que expressassem comparação: “He is strong like a bull”, “She is tall as a building”. As frases pareciam-me banais. Chegou a minha vez: “This bird sings like a Caruso”! Silêncio, riso… já não recordo a ordem das reacções da sala. Parece que ninguém, nem mesmo a professora, havia ouvido falar no tenor.

A vontade de praticar BTT pelos caminhos à volta de casa não tem sido muita. Os trilhos interessantes não abundam, a folhagem do eucalipto é pouco fotogénica e já não resta muito que explorar. Quando na semana passada vejo a fotoreportagem da incursão do Joel Braga pelas 49 igrejas de Famalicão a coisa fascinou-me. Ainda devo ter resquícios dalgum daqueles distúrbios que faz com que gostemos de ver as coisas alinhadas por isso pareceu-me que o facto de haver um tema a ligar aquele conjunto de fotos as tornava imensamente atractivas.

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Couto (Sta. Cristina)

Inspirado, de imediato comecei a trabalhar no meu projecto. Não queria repetir o que já fora feito, por isso voltei-me para o concelho de Santo Tirso onde se encontram os meus trilhos favoritos aqui das redondezas. A meio da semana já tinha o percurso alinhavado. Por uma questão de delicadeza informei o Joel de que ia usar a ideia e lancei o convite a habituais companheiros de pedalada, caso tivessem interesse em acompanhar. No dia acabaram por aparecer cinco (Jorge, Tico, Daniel, Major e Zé d’Infantas).

A elaboração do percurso deu-me um enorme prazer pois ao longo do processo, levado por aquele fascínio em perceber a ordem das coisas, acabei por ficar a conhecer um pouco da organização das paróquias, assim como da história dos seus santos padroeiros. Anotei tudo numa pequena tabela que iria recordando ao longo do percurso que visitaria as 25 paróquias a considerar.

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Campo (S. Martinho)

Desde cedo me apercebi que os meus companheiros não iriam partilhar aquele entusiasmo. As reacções variaram essencialmente entre o desdém e o ignorar. A sensação com que fiquei no final foi de que quem não pode concluir o percurso também não ficou muito desgostoso com isso.

Já agora, para que fique registado, não foi um percurso de BTT puro e duro. O objectivo era apenas ligar os pontos da forma mais expedita possível, evitando estradas movimentadas. Mas o sobe-e-desce quase constante e o terreno mais agressivo no final acabaram por fazer mossa.

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Vila das Aves (S. Miguel)

Umas igrejas mais bonitas que outras e umas fotos mais bem conseguidas que outras. Se o enquadramento escolhido nem sempre foi o melhor a quantidade de cabos aéreos estendidos também não facilitou. Para mim o resultado global foi bom. Apesar de cansado, já comecei a matutar no próximo. É que o episódio da aula de inglês não me desmotivou por aí além. Ainda há uns dias estava a ler sobre Maria Callas na wikipedia, mas não falei disso a ninguém.

As 25 paróquias do concelho de Santo Tirso em fotos

 

Pelas paróquias de Santo Tirso

Revisitar a Peneda

Um percurso desenhado há meses e guardado na gaveta foi o pretexto para o convite lançado. Só o nosso “Major” anuiu. Objectivo: percorrer a ecovia que vai de Arcos de Valdevez até Sistelo e de seguida escalar a Peneda para percorrer os habituais trilhos que apreciamos. Havia ainda a hipótese duma visita à Lagoa da Peneda, que tanta curiosidade me suscita.

O percurso pela ecovia superou as expectativas. Sempre com a companhia do límpido Rio Vez e com um traçado realmente digno de ser percorrido de BTT. Achei até algumas semelhanças com a famosa Geira Romana de Terras do Bouro.

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A ecovia acompanhando o Vez

Iniciámos depois a subida da serra. O avistar dos bosques de coníferas deu-me de imediato aquela sensação de prazer. Oposta à sensação de dor por ter de transpor à mão algumas secções mais complicadas.

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Tal… Vez?

O passar do tempo é implacável e as nossas conversas acabam por descambar para reflexões filosóficas sobre as consequências do envelhecimento. É um facto que estamos uns anos mais velhos e isso reflete-se (e não é pouco!) no corpo mas também na atitude. E talvez por isso fomos parando amiúde, com naturalidade, para apreciar a paisagem , retemperar as forças e dar mais dois dedos de conversa.
“Ai que prazer. Não cumprir um dever, ter um livro para ler. E não o fazer!” – assim afirmava o poeta dos heterónimos. Também o meu parceiro tem diversos heterónimos e também ele a certa altura do dia fazia o elogio da preguiça. Preguiça essa que nos levou a abdicar da visita à lagoa. “Provavelmente nem tem água, como aquelas do Gerês no ano passado.”, justificámo-nos. Afinal parece que tem água o ano todo, segundo a indígena do café. Ai que prazer, ter uma subida pela frente e não a fazer.

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Branda de Sto António

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Branda das Bosgalinhas

Da da Branda das Bosgalinhas é que não nos livrámos. Como se não bastasse, troquei um zig por um zag e fizemos a versão hardcore.

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O planalto da Peneda, se assim lhe podemos chamar, trouxe-me grandes memórias de 2004, quando conheci o meu actual companheiro de jornada. Quem diria que dois tipos que até nem atinavam muito ainda por ali andariam treze anos depois.

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O ogre e o santo, no topo da serra

Estes são a minha serra e trilhos favoritos. Durante algum tempo larguei o meu parceiro e deliciei-me de forma egoísta com aquele granito que me fazia abanar os ossos. Os mesmos que, há meses atrás, depois do acidente, julguei nunca mais atrever a sujeitar a este tipo de tareia.

A descida durou o que devia significar que estivemos num ponto alto, o que devia justificar o porquê de já estarmos cansados.

Chegámos ao ponto de partida e, como de costume, arrumámos as coisas e cada qual foi à sua vida. Apenas um “Até à próxima.”

Nota: fotos e vídeo:

Revisitar a Peneda

Meias de compressão

Saio mais uma vez à noite para pedalar. Está frio, como é costume nesta época. Cruzo-me com alguns ciclistas que aproveitam esta hora para dar também as suas pedaladas. E cruzo-me também com um tipo a correr. Lembro-me da brincadeira do Ricardo Araújo Pereira: este pessoal agora não corre nem faz atletismo, pratica running. Continuo a pedalar, esperando que com o esforço o corpo vá aquecendo. Sozinho, sem ninguém com quem falar (até parece que sou tipo de muita conversa…), a mente vai divagando. E penso neste blog e na hipótese de ser mais um projecto sem futuro por falta de conteúdo. Podia escrever sobre o tipo do running e as suas caricatas meias de compressão. Adoro implicar com tipos que usam meias de compressão. Tento antever se aquilo é mesmo amor à modalidade ou se é apenas uma moda passageira. Recordo quando há 18 anos atrás resolvi retomar a velha paixão da infância e adolescência pelas bicicletas. Devia ser um tipinho mesmo irritante. Aliás, estou certo que ainda haverá quem me considere um tipinho irritante, sempre a puxar a conversa para o tema das bicicletas. Nessa época muitos havia que me acompanhavam nessa paixão. Hoje poucos restam. Será que o tipo das meias de compressão daqui a 10 anos ainda cá anda com o mesmo entusiasmo? Ou será que o casamento, o nascimento do filho, a mudança de casa ou aquela gripe, que o apanhar precisamente no pico de forma e que o vai fazer ficar parado durante 15 dias a ganhar peso, lhe vai esmorecer a paixão e o entusiasmo para recomeçar quase tudo de novo? Este tema das meias de compressão e do running podia bem ser a salvação deste blog… Era fácil, bastava começar para aqui a descarregar algumas opiniões que tenho sobre esses temas. E que não são lá muito abonatórias. Mas depois começa a consciência a massacrar-me: “Olha lá, ó palerma, vais agora implicar com os moços por andarem atrás duma moda ou por utilizarem toda aquela parafernália de acessórios ridículos? Mas tu não te lembras da figura que fazias há uns anos com os teus amigos do BTT?”. E lá se foi o assunto. Felizmente que uma subida se aproxima. E quando vamos em esforço não temos grande disponibilidade para raciocínios complexos. Quem perde é este blog, que continua condenado ao fracasso.

Meias de compressão

O início

É assim que as coisas começam. Pelo início. Indefenido porque a única certeza é que terá um fim. É uma inevitabilidade. Já o meio é uma incerteza. Nem sempre conseguimos prosseguir com os planos ou aquilo que hoje parece uma ideia interessante pode facilmente ser abandonado amanhã. Veremos como progride.

O início