O Vez outra vez

Vária vezes tenho dito que é daquela serra que tenho as melhores recordações o que a torna, eventualmente, a minha favorita. Daí que um convite para lá voltar a pedalar seja irrecusável, ainda que por duas vezes a tivesse visitado nos últimos meses. O percurso, de BTT, nem seria muito diferente daquele do início de Julho mas, se o simples apelo do local não bastasse, ainda havia a expectativa de conhecer alguns caminhos novos.

Revelou-se um dia violento para o esqueleto. A entrada a frio na parte mais acidentada da ecovia, o Trilho dos Mortos e as tenebrosas escaladas de Currais e Sta Marinha marcaram o resto da jornada.

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Nem todos partilharão esta opinião mas a minha parte favorita do percurso, apesar do cansaço já acumulado, foi a Branda da Aveleira. Muitas vezes tinha ali passado nas redondezas mais foi a primeira vez que entrei na aldeia que fiquei com vontade de conhecer melhor.

Fiquei muito desiludido com o que aconteceu aos trilhos do planalto e às descidas para o Mezio, Lordelo e outras. Paço a explicar: todos aqueles trilhos técnicos que durante tantos anos fizeram as delícias de quem gostava de os percorrer de BTT foram sujeitos às máquinas. Agora são estradões onde até dá para passear de Kangoo.

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A companhia foi simpática, tudo bom moços. Mas não posso deixar de achar piada ao contraste entre o ruído que alguns deles fazem e as fotos que depois tiram, apresentando o ar contemplativo de quem absorve o espírito da montanha.

O Vez outra vez

Revisitar a Peneda

Um percurso desenhado há meses e guardado na gaveta foi o pretexto para o convite lançado. Só o nosso “Major” anuiu. Objectivo: percorrer a ecovia que vai de Arcos de Valdevez até Sistelo e de seguida escalar a Peneda para percorrer os habituais trilhos que apreciamos. Havia ainda a hipótese duma visita à Lagoa da Peneda, que tanta curiosidade me suscita.

O percurso pela ecovia superou as expectativas. Sempre com a companhia do límpido Rio Vez e com um traçado realmente digno de ser percorrido de BTT. Achei até algumas semelhanças com a famosa Geira Romana de Terras do Bouro.

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A ecovia acompanhando o Vez

Iniciámos depois a subida da serra. O avistar dos bosques de coníferas deu-me de imediato aquela sensação de prazer. Oposta à sensação de dor por ter de transpor à mão algumas secções mais complicadas.

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Tal… Vez?

O passar do tempo é implacável e as nossas conversas acabam por descambar para reflexões filosóficas sobre as consequências do envelhecimento. É um facto que estamos uns anos mais velhos e isso reflete-se (e não é pouco!) no corpo mas também na atitude. E talvez por isso fomos parando amiúde, com naturalidade, para apreciar a paisagem , retemperar as forças e dar mais dois dedos de conversa.
“Ai que prazer. Não cumprir um dever, ter um livro para ler. E não o fazer!” – assim afirmava o poeta dos heterónimos. Também o meu parceiro tem diversos heterónimos e também ele a certa altura do dia fazia o elogio da preguiça. Preguiça essa que nos levou a abdicar da visita à lagoa. “Provavelmente nem tem água, como aquelas do Gerês no ano passado.”, justificámo-nos. Afinal parece que tem água o ano todo, segundo a indígena do café. Ai que prazer, ter uma subida pela frente e não a fazer.

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Branda de Sto António
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Branda das Bosgalinhas

Da da Branda das Bosgalinhas é que não nos livrámos. Como se não bastasse, troquei um zig por um zag e fizemos a versão hardcore.

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O planalto da Peneda, se assim lhe podemos chamar, trouxe-me grandes memórias de 2004, quando conheci o meu actual companheiro de jornada. Quem diria que dois tipos que até nem atinavam muito ainda por ali andariam treze anos depois.

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O ogre e o santo, no topo da serra

Estes são a minha serra e trilhos favoritos. Durante algum tempo larguei o meu parceiro e deliciei-me de forma egoísta com aquele granito que me fazia abanar os ossos. Os mesmos que, há meses atrás, depois do acidente, julguei nunca mais atrever a sujeitar a este tipo de tareia.

A descida durou o que devia significar que estivemos num ponto alto, o que devia justificar o porquê de já estarmos cansados.

Chegámos ao ponto de partida e, como de costume, arrumámos as coisas e cada qual foi à sua vida. Apenas um “Até à próxima.”

Nota: fotos e vídeo:

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